A Transmissão De Conhecimento É Possível?
por José Ricardo de Oliveira Damico1
Os últimos 100 anos foram profícuos em descobertas, invenções e aparatos
tecnológicos que permitiram ao homem o acesso a informação. Graças
a tais avanços somos capazes de interagir com pessoas ao redor do
mundo de maneira instantânea. Transcendemos o espaço nesses relacionamentos
interpessoais e diminuímos o tempo de transmissão de conteúdo. Todavia
não aumentamos a velocidade de criação de gênios; Não diminuímos a
fome no mundo; Não previmos nem nos precavemos contra a atual crise
econômica; Não aplacamos o desmatamento na Amazônia nem o aquecimento
global; Continuamos a crescer desordenamente e pelo vício da novidade,
nos tornamos de forma generalizada ansiosos.
A velocidade com que adquirimos informações através da televisão,
rádio, celulares, computadores, video-games, gps, é
diretamente proporcional a velocidade com que nos esquecemos das mesmas.
A falta de profundidade de memória implica em insensibilidade e superficialismo.
A conclusão é de que transmitir informação não significa transmitir
conhecimento. A própria idéia de transmissão de conhecimento merece
ser revisitada. Ela implica na atribuição de conhecimento como uma
matéria que pode transitar pelo espaço por diferentes veículos. Este
conceito pode ser uma falácia sob a proposição de que o conhecimento
é composto pelo relacionamento com o meio, informações e experiências.
Portanto, possuir habilidade de relacionamento com o meio, aquisição
de informações e vivência de experiências, caracteriza os requisitos
mínimos de um veículo de conhecimento. Segundo essa análise entende-se
que o ser humano é um veículo de conhecimento e por conseguinte pode
transitar com o conhecimento pelo espaço.
A questão agora avança do trânsito para a transmissão. A partir do
fato de que o relacionamento com o meio depende das características
únicas do veículo - o que da mesma forma ocorre com as experiências
- infere-se então que o conhecimento é único para cada veículo, mesmo
que as informações sejam iguais entre diversos veículos.
O que faz do relacionamento com o meio e a aquisição de experiências
únicos é a forma pela qual eles ocorrem, ou seja, em função do tempo.
Como não se pode replicar o arranjo do veículo no tempo, não se pode
também considerar o conhecimento como algo mensurável, transmissível
e elementar. Do conhecimento pode-se transmitir de forma intacta a
informação. Pode-se também simular o relacionamento com o meio e as
experiências adquiridas afim de gerar em um veículo diferente um conhecimento
similar que gere resultados semelhantes. Tal simulação pode ser realizada
através de uma descrição detalhada ou pela simples imitação.
É neste ponto que um novo conceito surge: O aprendizado. Enquanto
o conhecimento é formado pelo conjunto de relacionamento com o meio,
informações e experiências, o aprendizado é formado de simulações
de relacionamento com o meio, simulações de experiências dadas as
mesmas informações. Portanto o aprendizado é a única alternativa para
a transmissão do conhecimento.
Como já dito antes as simulações podem ser feitas através de descrições
e imitações. As descrições em si são informações transmissíveis por
todos os meios conhecidos. Já as imitações dependem de que um veículo
de conhecimento imite o outro. Em termos concretos uma simulação pode
ser descrita e transmitida por livros, computadores e professores.
Enquanto a imitação depende que alguém se proponha a representar seu
conhecimento para que outro alguém as simule, as imite. A estes, dá
se os nomes de mestre e aprendiz. Por estas mesmas razões entende-se
que, de mestres geram-se discípulos, discípulos podem se tornar mestres
e eventualmente gênios. Mestres preservam para com o discípulo o equilíbrio
entre: O relacionamento com o meio, as informações e as experiências.
Já professores geram alunos, com enfâse apenas na transmissão das
informações, sejam elas o cerne do conhecimento ou a descrição das
experiências e relacionamento com o meio.
Por fim, uma vez que o conhecimento tem suas ligações indivisíveis
com o tempo é imprescindível que o tempo seja cultivado. Se as informações
vem e se perdem de forma instantânea, é importante que aquelas que
representam potencial conhecimento recebam o tempo de maturação necessários
para que não se percam. O ser humano precisa resgatar a sua maior
inovação, sua capacidade de aprendizado e aplica-lá a um relacionamento
contínuo entre pessoas.
Footnotes:
1http://dcon.com.br (jd.comment@gmail.com).
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On 23 Mar 2009, 12:19.